A exposição-performance “Corpos Ausentes” do III Circuito Regional de Performance BodeArte encontra-se aberta desde sábado (07/12/2013) aqui na cidade do Natal (RN), na Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte. Reunindo 100 registros de performers de mais de 120 performers, ela ocupa duas salas e fica aberta para sua visitação de segunda à sábado, das 08:00 às 17:30. Essa exposição marca, no período do Natal, na cidade do Natal, a ausência do III Circuito Regional de Performance BodeArte, e ainda mais, as ausências desse ano, e encaminhadas esse ano para o próximo, em relação aos artistas que trabalham com performance no Brasil. Mostrar performances que poderiam estar aqui, mas não estão. Performances que poderiam estar em muitos outros lugares e não estão. A ausência da performance como forma de performar a ausência.

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 Sabemos que o BodeArte na verdade começou há mais um mês atrás quando todos os participantes iniciaram maravilhosas conversas e trocas pelas redes do III Fórum de Performance BodeArte.  Esperamos que esse processo possa dar tanto à vocês quanto deu a nós. Esperamos que ano que vem, apesar de tudo o que se armou na direção contrária desde 2013, a performance no Brasil possa encontrar caminhos que propiciem menos descaso à ela, batalhamos para isso. Esperamos que o Bode possa encontrar um caminho para continuar a furar as ausências e encontrar novas políticas corpo-a-corpo, boca-a-boca, para existir!

As imagens enviadas pelos performers podem ser visualizadas aqui: http://www.flickr.com/photos/circuitobodearte/sets/72157638378048513/

Maiores inforamçoes sobre o Circuito Bodearte neste link:

http://circuitobodearte.blogspot.com.br/

Fragmento ausente de corpo presente presentificando a ausência de incentivo pra firmar a presença da vontade afirmar existência do desejo de produzir linguagem assim meta: linguagem como foto como fato per.formato aberto pra [re]unir expandir instigar agregar os perform.atos

Estamos ausentes? Quem presentifica nossas ausências? O exercício da resistência como uma ação micropolítica. Ao invés de identidades formatadas, nosso maior desafio é termos que constantemente transvalorar, transformar, reinventar nossos lugares de composição, abrir fendas na couraça do instituído e traçar um território EstÉtico de potência nômade.

Ausência. O vazio do Outro nos acomete. Privação. Falta. Onde está você? A falta que o corpo faz. A falta que faz ao corpo o corpo presente para o encontro. Na ausência o corpo se faz. Onde está o Outro da Performance? No Público? Ou privado? Na ausência do Outro o corpo faz. E produz outros modos de fazer. Façamos. Façamos.

Fazer performance como quem questiona: O que está ausente? Segredos? Erros, sujeiras amorais ou só percepção de mundo? Vontade-desejo exibicionista e forte, somos resistentes-na-performance: política, heroica ou erótica… Queremos toda ausência ao mesmo tempo: teus medos, segredos e taras vertidas em políticaseróticasgozantes…

Conseguimos nós performar sem estar? Nosso corpo ausente, presente está n’algum lugar. N’algum lugar, em algum lugar, em lugar algum. Sua presença/ausência no espaço, por vezes quebra barreiras, cria novos espaços, reterritorializa, e por outras, se configura pelo aguçar da sua imaginação. Não estamos aqui como um todo, mas onde fica esse lugar em que é como todo? Não fica, esse fragmento de nossa ausência é apenas parte do incompleto ato de estar vivo e em processo.

Um fio se desgarra da manta das verdades unilateriais.

O que é que sobra de um fio que escapa? O rastro?

Como comparecência da ausência, aquilo que fica ou sobra do que desapareceu ou passou.

Sem começo nem fim, ele mesmo. No nada. No aqui. No entre. No vão. Um suspiro do berro, um pó da sujeira, uma folha do quintal. Que linguagem falam as coisas sem visibilidade? Será que não ver pode ser não ouvir? Estará a performance criptografada em corpos invisíveis aos olhos brasilis?

A performance é linguagem as avessas: é dobra, fissura, linhas de língua, línguas de fuga. Lugar de produção desejante por si só, assume o processo como coisa em si, deslocando o olhar da retina do mercado, assumindo um movimento contra-capitalístico. E se hoje estamos nessa situação de negação perante editais público-privados, espaços de arte, galerias, museus, se hoje nos sentimos amarrados a continuar a caminhada com o mínimo de dignidade econômica para realização de nossos projetos, é porque ainda precisamos escavar muitos buracos, abrir outros canais, novas formas de sustentabilidade e, claro, esgarçando a precariedade de nosso modo de vida operante, descartável, numa indústria da estética-cosmética. Mostra-se salutar que hoje nossa tarefa ainda é a subversão dos modos de vida. E sim, performance é ação política.

Avistar um outro caminho para a existência; estender a presença para distâncias remotas; trabalhar a poesia como o “texto” da performance; transitar constantemente na fronteira, nas fronteiras; tocar um instrumento como um ator; fazer do olhar uma profusão de caminhos; fazer arte dando aula; escrever como ação; Fazer performance é uma suspensão do cotidiano dentro dele, ou tornar essa suspensão um cotidiano. Um outro modo de existir. É pensar o enquanto, “ir indo”, é deriva de processo e não produção de produtos. Contentar-se com o que passa, com o rastro. Explorar o devir das coisas, experimentar os corpos do(a)s passantes.

Como a performance é multilinguagem, tudo potencializa. Já ampla, se expande ainda mais, pois age num ato sem fronteiras da criatividade do performer. Assim, o foco no corpo não precisa do corpo, ele pode estar ausente, como no nosso caso, e ainda assim ser performance. Mesmo ausente o corpo há uma presença sutil para que a obra possa existir, a presença que afirma “não estou”, “não estamos”.

A arte da presença é também a arte da ausência. Pode um corpo ausente se tornar Performance? Pode. Pode e deve. A ausência se mostra como resistência cultural a opressão da falsa presença negociada em mercados de editais e políticas públicas. A arte da ausência é também a arte da presença.

Há nessa ausência também retirância, no corpo que se retira, que se move, que trans-vê na ausência da chuva tudo o que dorme numa superfície aparentemente vazia, parafraseando Manoel de Barros. Ao retirar os corpos da performance, será que ainda resta alguma presença?

E hoje, vislumbramos que mente e corpo não estão separados, a não ser por conceitos, teorias e principalmente por um aprendizado forte que permeia profundamente nossa cultura. Palavras ditas, palavras faladas, palavras escritas. Mas nunca palavra em corpo. Ou mais, palavras em corpo, vistas como se assim não fossem. Se o corpo está ausente, obviamente a performance está ausente.

Mas utilizando a fotografia dilatamos o tempo presente. O momento da performance é dilatado indefinidamente no tempo – é muito diferente do que seria se fosse apenas um registro de uma performance ao vivo. Não é somente fotografia, nem permanece registro, é uma fresta, uma brecha, um encontro fantasmático de tantas ausências, de tantos bodes de prato vazio na performance arte brasileira.

O fato de nós não estarmos presentes, ou seja, estarmos ausentes no momento que o público estará nos vendo é uma das questões que nosso corpo escolheu performar nesse encontro. O fato é o fato, palavra usada para definir coletivo de bodes. O fato é que há performance sendo feita no Brasil todos os dias.

Se a performance tem como base ontológica o corpo presente, a ação viva, esse BodeArte procura fazer uma reversão, propondo uma performance de corpos que estão declaradamente ausentes. Declarar ausência para investigar outros modos de ser e sobreviver nas paisagens das artes brasileiras. Um pico de visibilidade para as ausências da performance, o III Circuito Regional de Performance BodeArte (Corpos Ausentes) parte da re-união de 100 performers brasileiros que agora batalham com seus corpos em diferentes contextos atravessados por esse estranho ser que não cabe em não estar, esse estranho estar que não cabe em não ser.

Arquitetura de duna móvel, como as que cercam a cidade do Natal, somos monte imenso, difícil de não se notar, mas somos também poeira fina que flutua no vento, e se move nômade pelas casas, ruas, corpos, passando pelas por todas as brechas, poros, buracos, fechaduras, aberturas, rasuras, do que existe, do que pode existir.

Ausências presentes em Natal, mas também presenças ausentes em Natal, e por isso espalhadas por todo o Brasil e além dele. Somos os bodes, os corpos que furam a precariedade e tristeza para performar as potências alegres desse Circuito fantasmático, zumbi, vivo e morto, vivos e mortos, vidas e mortes.

Att. Perfod. Embod.

Adriana Ayub (PE), André Bezerra (RN), Andrea Aparecida (SP), Carolina Moya (SP), Chrystine Silva (RN), Coletivo PataPalo (SP), Gilmara Oliveira (MG), Lilian Soarez (SP), Lucio Agra (SP), Marcelle Louzada (CE), Nina Caetano (MG), Raisa Inocêncio (RJ;CE), Yuri Tripodi (BA).